Monte Roraima – Relato Completo do Mochilão na Venezuela

Thaís e eu. E a imensidão do Roraima.

10 dias na Venezuela, entre os encantos da Gran Sabana e seus Tepuyes, como são chamados os grandes montes como o Roraima. Essa sem dúvida foi a experiência mais intensa que tivemos com uma montanha. O lugar, além de singular, é mágico, inspirador e transcende nossa compreensão sobre a vida e o universo. A cada horizonte avistado e a cada cantinho descoberto o coração acelerava. E em seguida se acalmava num onda de paz, como se sempre tivesse esperado por dias assim…

Podemos resumir em uma frase a resposta à pergunta “Vape a pena?”: Compre logo sua passagem!

Vamos tentar passar aqui um pouco do que vivemos nos dias explorando esse território que guarda nada menos do que milhões de anos de história. Um relato apaixonado e dicas preciosas é o que você deve esperar desse post.

Mais uma vez, vou liberar o post pra vocês ainda em construção e, aos poucos, vou preenchendo com todas as informações necessárias pra que você planeje sozinha(o) sua trip. Tenho que admitir que não tenho tanto tempo quanto gostaria, mas não vou deixar de postar aqui o que puder, pois muita gente tem pedido as dicas pra essa viagem.

Se você tiver paciência, em algumas semanas vai ter aqui tudo que precisa saber. Se estiver ansioso ou com tempo apertado pro seu planejamento, então indicamos que visite o relato do blog Seu Mochilão. Foi com base nesse relato que planejamos nossa trip e deu tudo certinho. No fim, claro, diferentes desfechos e fatos marcam as duas experiências. Aqui, vamos contar a experiência de uma viagem planejada por mulheres [com ajuda masculina e companhia masculina, pois não temos nada contra os homens – nós os amamos! =)], além de passar pra vocês o nosso ponto de vista sobre o que vivenciamos.

 

Kukénan e Roraima

 

PREPARANDO A EXPEDIÇÃO

 

JÁ EM SANTA ELENA – VENEZUELA

 

DURANTE O TREKKING DO MONTE RORAIMA [EM BREVE]

 

MAIS SOBRE A EXPEDIÇÃO

 

Por que o Monte Roraima?

A inspiração pro Monte Roraima veio no segundo ano da faculdade de Biologia, quando um professor disse que passaria todo o mês de férias lá. Até então, minha única experiência de montanha tinha sido o Pico da Bandeira, na divisa entre Minas Gerais e o Espírito Santo, e eu sequer tinha ouvido falar do Monte Roraima.

Leia um post nosso sobre o Pico da Bandeira aqui.

No primeiro momento, na minha ignorância, imaginei: ‘mas, meu Deus, por que Roraima?’, tentando decifrar o que tinha de tão especial nesse estado brasileiro – quando na verdade a maior parte do monte fica na Venezuela. Em seguida, ele começou a explicar a singularidade do lugar, a formação geológica, a ocorrência de espécies endêmicas e o desafio de caminhar durante dias pra conhecer isso tudo. Não tive dúvidas e naquele momento o Monte Roraima entrou pra minha lista.

Muitos anos depois, quando nossa patotinha de aspirantes a montanhistas (risos!) se formou, esse era um destino valorizado nas nossas rodas de conversa sobre empreitadas futuras. Além disso, um dos nossos amigos, o Rodrigo Figueiredo, tem o projeto de subir o ponto mais alto de cada estado brasileiro. Entre eles, lá está o Monte Roraima. Então estava resolvido: nossa expedição ao Monte Roraima iria acontecer em 2015!

Em fevereiro começou a nossa ‘preparação’ pra essa viagem. Assim, entre aspas, pois durante meses o que fizemos foi ficar discutindo possíveis datas. Por fim definimos o mês pra viagem, setembro. Entre amigos e amigos de amigos, tínhamos 10 confirmados trocando expectativas e dividindo a ansiedade sobre nossa tão esperada viagem.

 

Um pouco sobre o Monte Roraima e a Gran Sabana

O Monte Roraima faz o papel de sediar a tríplice fronteira entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana. O acesso ao monte fica no Parque Nacional Canaíma, na Venezuela. Uma partezinha do Roraima está em território brasileiro e, aqui, a unidade de conservação recebe o nome de Parque Nacional do Monte Roraima. Não há acesso pelo lados brasileiro e guianense, de paredões intransponíveis.

O Parque Nacional Canaíma abriga uma série de formações rochosas únicas no mundo: são cerca de 20 montes ou mesetas. Além dessas formações, a unidade de conservação se destaca por abrigar o ecossistema de savana, a famosa Gran Sabana venezuelana. A paisagem é de um planalto com horizonte a perder de vista, tomado por vegetação rasteira nativa que lembra as pastagens brasileiras (não vimos um bovino sequer, a propósito), com bosques de Buritis nas áreas mais baixas e encharcadas. Os únicos elementos capazes de quebrar a constância desse horizonte são, de fato, os Tepuyes.

 

Paisagem da Gran Sabana e seus Buritis

Paisagem da Gran Sabana e seus Buritis

Tepuyes. É assim que os índios Pémons, os donos originais dessas terras, chamam as mesetas como o Roraima. Cada tepui recebe um nome indígena específico, sendo Roraima o nome do tepui mais à leste do território da Gran Sabana.

Por onde você passe na Gran Sabana, é possível avistar comunidades indígenas que preservam em sua maioria a arquitetura das aldeias – notadamente os telhados de algumas casas incorporam traços da arquitetura contemporânea. A economia é fortemente marcada pelo turismo e muitos índios vivem como guias, carregadores de alimentos/pertences para turistas que sobem o Roraima, vendedores de artesanato ou trabalhadores de pousadas e restaurantes locais.

Leia também: Na Savana Sul-Americana: os encantos da Venezuela e sua ‘Gran Sabana’

Para adentrar a trilha que leva até o Monte Roraima, é preciso pagar uma taxa de B$ 200,00. Isso mesmo! 200 bolívares venezuelanos. Mas calma, esse valor é equivalente a cerca de R$ 1,30 (Ufa!). Além disso, é obrigatória a contratação de um guia pémon para realizar a trilha e a ascensão ao topo do Roraima.

A lenda

A lenda do Monte Roraima surgiu na tribo dos índios Macuxi, que ali habitavam. Conta que antigamente não havia nenhuma elevação naquelas terras. Muitas tribos indígenas viviam naquela área plana e fértil onde a caça, a pesca e outros frutos eram abundantes. Porém, num dia, nasceu num local uma bananeira, uma árvore que nunca aparecera ali antes. Tornou-se, rapidamente, viçosa e cheia de belos frutos, mas um recado divino foi dado aos pajés, de que ninguém poderia tocar nela ou em seus frutos, pois aquele era um ser sagrado; Se alguém o fizesse, inúmeras desgraças aconteceriam ao povo daquela terra. Ao amanhecer de certo dia, a tribo percebeu que haviam cortado a árvore, em instantes, a natureza revoltou-se, trovões e relâmpagos rasgavam o céu deixando todos assustados e o seu tronco transformou-se no Monte Roraima. Pessoas dizem que até hoje o monte “chora” pela violação no passado.

 

Qual guia escolhemos?

Como a contratação de guia para o Monte Roraima é obrigatória, não há a mínima possibilidade de fazer esse trekking sem acompanhamento. Isso não se deve à dificuldade do percurso, mas sim às regras do parque. Para preservar a íntima relação entre os índios pemóns e os tepuyes, o governo da Venezuela determinou que o guia de expedições ao Roraima deve ser necessariamente da comunidade local.

Há duas maneiras de contratar um guia para o Roraima:

  • Por meio de empresa operadora de turismo
  • Diretamente com um índio pemón

Depois de muito ler em fóruns, blogs e outras páginas da internet, decidimos contratar a empresa venezuelana Backpacker e a Mystic Tours (a equipe MCE se dividiu, não fomos todas na mesma época) As duas tinham boa avaliação nessas páginas e o preço não estava muito diferente das demais.

De fato, as duas empresas eram tão boas quanto relataram nos fóruns e blogs. Mas não temos dúvida de que a boa impressão que tivemos se deve quase totalmente à equipe de nativos que nos atendeu.

Portanto essa dica é valiosa: não hesite em contratar sua trip diretamente com um índio. Nós indicamos fortemente que você contrate o guia Roman e sua equipe. Eles são índios pemóns com experiência de quatro anos no Roraima. São super atenciosos, educados e gentis, vocês verão pelo Relato do Trekking em breve. Tenha persistência e ligue preferencialmente no sábado à tarde ou domingo de manhã, pois nos outros dias eles estão na montanha. Ele entende português e você entenderá o ‘portunhol’ dele. Além disso ele fala inglês e espanhol.

Guia: Roman | Telefone: +58 041 610 02700

Outra opção é solicitar à Backpacker que o contrate como guia da sua expedição. O único porém é que não sabemos ao certo quanto a empresa repassa ao guia e à equipe. Eles são pessoas simples e é uma pena que recebam pouco. Na nossa expedição deixamos uma boa gorjeta como forma de agradecimento.

 

No topo. Em breve o relato continua!

No topo. Em breve o relato continua!

 

Roupas e Equipamentos – O que levar?

  • Mochila cargueira com capa de chuva
  • Capa de chuva ou poncho pra você
  • Saco de dormir
  • Isolante térmico
  • Lanterna de cabeça
  • Anorak
  • Fleece
  • Bota de trekking [veja aqui como escolher a sua]
  • 4 pares de meias para trekking
  • 1 meia grossa para dormir
  • 2 calças (próprias para trekking ou legging)
  • 2 camisas de tecido leve (não use camisas de algodão)
  • 2 camisas manga longa de tecido leve
  • 1 Bermuda
  • Biquíni
  • Toalha (aquelas super absorventes e compactas)
  • Luva
  • Gorro
  • Chapéu, viseira ou boné
  • Chinelo ou papete
  • Calça comprida segunda pele para dormir
  • Blusa de manga comprida segunda pele para dormir
  • Mochila de ataque (para a viagem e para o cume)
  • Garrafa de água ou bolsa de hidratação
  • Repelente (Exposis Extreme é o melhor)
  • Protetor solar
  • Vaselina (passar no pé pra não dar bolhas) – opcional
  • Sabonete biodegradável (porque os banhos são no rio)
  • Sacos para lixo
  • Clorin
  • Remédios para febre, enjoo, azia, dor, anti-inflamatório e outros
  • Silver tape (salva desde barracas com furos até botas que descolam o solado)
  • Chocolate, amendoim, frutas secas e outras comidinhas para o dia

Se você não quer levar sua mochila, pode contratar carregadores para levá-la, dá pra decidir isso em Paraitepuy.

 

[CONTINUA]

Anazélia Tedesco

Anazélia Tedesco

Anazélia Tedesco tem 28 anos, é bióloga, dedica-se à restauração de florestas como trabalho e ao montanhismo como lazer - a união dessas duas coisas define seu estilo de vida. Sua história com as montanhas começa em Pancas, a terra do Pontões Capixabas, onde nasceu. Mais tarde, conheceu os trekkings de longa distância e as tradicionais travessias e, desde então, não parou mais.
Anazélia Tedesco

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29 Comentários

  • Petronio Freitas

    Lugar mágico! Parabéns pelo Blog.

  • Muito interessante o relato. Espero um dia conhecer.

  • Raquel Bittencurt

    Adorei o relato…e espero em breve…muuuuito breve ir a este lugar maravilhoso…suas dicas estão ótimas…não sei se eu não achei …mas se vcs tiverem dicas do que levar no “mochilão” eu vou adorar….meninas muito obrigada pelas dicas…bjsss

  • Gostei muito, a natureza é algo fantástico, vou voltar pra acompanhar a continuação da aventura no Monte Roraima que é um espetáculo a parte.

  • Luciene Bottiglieri

    Oi meninas, eu fiz esta viagem em 2007 e foi incrível. A melhor coisa da viagem é estar em contato com tanta energia em um único lugar e ter a oportunidade trocar experiência com gente do mundo inteiro. Vou guardar o Monte no meu coração para sempre.

  • EDUARDO SHIBA

    Sou montanhista, aventureiro e um grande apreciador da natureza…E planejo um dia desses ir pro Roraima.
    Já vi muitos relatos desta viagem, mas nenhum tão completo e de um formato tão informal quanto este, que está sendo de muita ajuda e incentivo para mim.
    Continuarei acompanhando com muita curiosidade esta viagem de vcs.
    Parabéns pela matéria, e estarei aguardando outras e de mais outros lugares também.

  • Heloisa

    Parabéns pelo relato. Bem completo e organizado. Vou com um grupo agora em dezembro e estou muito em dúvida com relação à segurança na Venezuela pois escutamos muitos comentários ruins em função da situação política q estão vivendo . Houve algum incidente com vcs ? Sentiram alguma dificuldade la ??
    Agradeço se puder retornar.

    • Oi, Heloisa! Obrigada pelos elogios =)
      Olha, nós não podemos dizer que nos sentimos inseguras na Venezuela, mas sem dúvidas não é a mesma coisa que estar no Brasil. Não houve nenhum incidente conosco. Pelo que assuntamos com os brasileiros que vivem perto da fronteira e com os próprios venezuelanos, viajar para essa região não é tão perigoso quanto ir pra Caracas ou Isla Margaritas. Vamos escrever mais sobre esse item nesse fim de semana. Acompanha aqui que já já tem mais informação.
      Abraço!

  • Mila Lopes Baía

    Íncrivel!!!! Parabéns…. e muito obrigada pelas informações!! Certamente vai me ajudar muito a realizar mais essa conquista pessoal de visitar o Monte !!! Estou anciosa para ler a continuação….. valeu demais!!!!

  • Iáskara Pimentel

    Divas, amei o relato tão de Parabéns!!!
    Estou indo para o Monte na sexta-feira dia 30/11 e claro com aquele friosinho na barriga, afinal será minha primeira grande viagem e estou precisando de uma mãozinha srsrs este post aqui é bem importante para mim:
    “Roupas e Equipamentos – O que levar? Lembre que é você quem vai carregar a mochila (ou não!)”
    Vou montar minha mochila amanha e to mega em duvida sobre roupas de frio e de chuva, se puderem me ajudar eu vou adorar!!!
    Beijo Gigante!!!!
    Iáskara Pimentel

    • Iáskara, muito obrigada pelos elogios! Eles são nosso combustível e recompensa por manter esse blog =)
      Eu ia responder à sua pergunta com uma atualização na postagem, mas seu prazo tá se esgotando e meu tempo tá curto, então aqui vai o essencial que vc precisa pra frio e chuva. Frio: durante o dia e caminhada, roupas ‘normais’ de trekking são suficientes, porque faz um calorzinho tropical. Use manga comprida pra proteger do sol. Durante a noite é indispensável usar duas camadas: segunda pele (inclusive calça) e fleece é o que eu indico. Saco de dormir com temperatura de conforto próxima a zero também é importante. Chuva: leve tudo impermeável que tiver…rs (o tempo é louco e muda muito rápido). Um bom anorak, calça impermeável e capa pra mochila são indisponsáveis também. Quanto a quantidade, sugiro o seguinte: calça segunda pele (1), blusa segunda pele (1), casaco de fleece (1), calça de fleece ou outra calça para frio (1). Esse conjuntinho você vai usar todo dia à noite (já de banho tomado e guardar limpinho na mochila depois).
      O resto é o que vc vai usar durante a trilha. Não leve uma roupa pra cada dia de trilha. Repita as que estiverem em melhores condições! rs Desculpa a demora e se precisar de mais alguma coisa estamos aqui! Que sua viagem seja tão incrível quanto a nossa foi. =)
      Beijão!

  • Lorena

    Meninas!
    O link do fale conosco do site de vocês não está funcionando!
    Queria trocar umas idéias e contar como é que eu descobri vocês!
    Parabéns pelo blog!

  • Marília Guimarães

    Oi meninas! Tou doida pra ver o relato completo de vcs, viajo segunda (09/11), queria saber detalhes em relação ao trajeto da subida ao monte. Há alguma dica essencial pra amenizar o cansaço e a adequação ao clima? Como foi o percurso de vocês quanto à paradas, e quando chove?
    Beijos e parabéns pelo Blog 🙂

    • Marília! Que pena não ter respondido a tempo! A dica, que vc deve ter seguido por intuição e por imposição do seu corpo é: respeite seu ritmo. Parávamos pouco durante o trekking. Geralmente o almoço era após a pernada do dia, e daí pra frente era curtir a paisagem e descansar pro dia seguinte. E só choveu uma vez durante todo o trekking, acredita?! Como foi sua viagem?

  • Mabel

    Olá! Então, temos que contratar um guia local e agência? Obrigada

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